02/06/2026
𝟏𝟒𝟓 𝐀𝐧𝐨𝐬 𝐝𝐚 𝐈 𝐄𝐱𝐩𝐨𝐬𝐢çã𝐨-𝐁𝐚𝐳𝐚𝐫 𝐝𝐞 𝐁𝐞𝐥𝐚𝐬-𝐀𝐫𝐭𝐞𝐬
Em 1881, o Palácio de Cristal do Porto acolheu a I Exposição-Bazar de Belas-Artes, promovida pelo Centro Artístico Portuense, associação fundada em 1880 por artistas, intelectuais e beneméritos empenhados em renovar o ensino artístico, aproximar as belas-artes das artes industriais e educar o gosto do público.
Presidido por António Soares dos Reis, com a participação de figuras como João Marques de Oliveira e Joaquim de Vasconcelos, o Centro procurava criar um espaço de ensino livre, debate, exposição e valorização da arte moderna e do património artístico português. A exposição de 1881 foi uma das suas iniciativas mais significativas, reunindo pintura, escultura, objetos de coleção, artes decorativas e produções industriais, num modelo que articulava cultura, pedagogia, sociabilidade e mercado.
A presença das 𝐑𝐞𝐧𝐝𝐚𝐬 𝐝𝐞 𝐁𝐢𝐥𝐫𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐕𝐢𝐥𝐚 𝐝𝐨 𝐂𝐨𝐧𝐝𝐞 na exposição ficou ligada sobretudo a Joaquim de Vasconcelos, historiador de arte, crítico, museólogo, professor e grande defensor das artes industriais e das chamadas indústrias caseiras. Para Vasconcelos, a arte não se limitava às belas-artes tradicionais: incluía também os saberes manuais, os ofícios e os produtos artesanais que exprimiam a identidade e a criatividade do povo português.
Na secção dedicada à Indústria Têxtil, o catálogo da exposição identifica Joaquim de Vasconcelos como o único expositor de rendas, apresentando uma coleção de estampas, modelos, bordados e rendas, incluindo de Vila do Conde.
A presença das rendas vilacondenses neste evento representou a entrada de um saber-fazer tradicional, feminino e doméstico num espaço público de prestígio, associado ao ensino artístico, à crítica, ao colecionismo e à valorização patrimonial.
Produzidas maioritariamente por mulheres, muitas vezes desde a infância, as rendas de bilros eram simultaneamente trabalho de subsistência, herança técnica transmitida de geração em geração e expressão de grande complexidade ornamental. Ao serem apresentadas como padrões dignos de observação e estudo, deixavam temporariamente o circuito da almofada, da casa e do comércio local para serem reconhecidas como objetos de arte aplicada, documentos de cultura material e testemunhos de identidade regional.
Joaquim de Vasconcelos teve um papel decisivo nesta valorização. Nascido no Porto em 1849, foi uma das figuras mais influentes da cultura portuguesa de finais do século XIX. Ligado à Sociedade de Instrução do Porto, ao Centro Artístico Portuense e ao futuro Museu Industrial e Comercial do Porto, defendia que os museus e as exposições deviam funcionar como instrumentos de ensino, capazes de formar artistas, operários, industriais, comerciantes e consumidores.
Para ele, as rendas, os bordados, a cerâmica, a ourivesaria ou a tecelagem não eram produções menores, mas manifestações de saber técnico e artístico que importava preservar, estudar e renovar.
A sua preocupação tinha também uma dimensão social. Vasconcelos mostrou-se atento às difíceis condições de vida das rendilheiras, criticando os baixos preços pagos pelo seu trabalho, os custos suportados pelas próprias artesãs e a dependência de intermediários. Ao referir-se ao percurso da renda desde o desenho e o pique até à venda final, descreveu uma realidade marcada pela precariedade, em que a obra era muitas vezes vendida “ao desbarato”.
Esta consciência torna a sua intervenção particularmente importante: ao expor as rendas de Vila do Conde, Vasconcelos não apenas lhes conferia visibilidade estética, mas chamava também a atenção para o valor humano, económico e social do trabalho feminino que lhes dava origem.
A presença das rendas de Vila do Conde na I Exposição-Bazar de Belas-Artes deve ainda ser lida numa sequência mais ampla de participação das rendas portuguesas em exposições nacionais e internacionais.
Vila do Conde esteve representada em certames como a Exposição Nacional de Lisboa de 1863, a Exposição Industrial Portuguesa de 1865, a Exposição de Paris de 1867 e, mais tarde, a Exposição Universal de Paris de 1889, onde Joaquim de Vasconcelos expôs rendas e entremeios de Vila do Conde.
📸 INCM