30/07/2022
DA MINHA TERRA …
Gente que conheceu e conviveu com João Liberal
ANTÓNIO JOSÉ (da Loura)
A envolver a figura austera e digna de António José (da Loura), há uma auréola que nos toca e enche de admiração, pela sua vida longa de operário dos mais habilidosos do país.
Desconheço, ao certo, quais as suas habilitações escolares, mas, ao que me contaram seus familiares e pessoas que com ele conviveram de perto, sabia apenas ler, escrever e fazer contas, tendo suprido a carência de instrução oficial, e tornar-se num valor profissional distinto de algumas artes do mundo laboral. E, naturalmente, não só.
António José (da Loura) nasceu no Barreiro em 23 de Março de 1864 e foi casado com Gertrudes Maria Marques, de cujo matrimónio não houve filhos.
A sua história é bonita e honra sobremaneira a terra onde nasceu. Morou, durante dezenas de anos, na rua Almirante Reis, num prédio com esquina para a rua Eusébio Leão, próximo do "Largo do Casal", chamado oficialmente Largo Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Antigas artérias do Barreiro, reminiscências de épocas inesquecíveis, caracterizadas por um povo que se afirmou e teve personalidade bem vincada, através de várias gerações de pessoas que imprimiram à vida um cunho raro de trabalho, de cultura e de humanismo, que impressionou e produziu um desenvolvimento excepcional na comunidade.
Estou a vê-lo, retratado na mente: homem alto, hirto, seguro, com expressão respeitável, de barba branca. Ao passar nas ruas da localidade, na década dos anos 30, quando eu já reparava em tudo que acontecia à minha volta, a sua figura transmitia-me enorme consideração.
Diz-se que a alcunha "da Loura" se deve ao facto da mãe possuir cabelos louros. Por isso, e para melhor identificação, lhe chamavam António José (da Loura). Isto era, então, normal suceder no Barreiro, no passado terra pequena, em que as famílias se conheciam quase todas. Eu deparei com casos semelhantes, até na minha família. Um exemplo: a minha mãe chamava-se Sara, e os vizinhos referiam-se a um dos meus irmãos como o António (da Sara). Era assim.
O talento do António José começou a revelar-se cedo. Aos sete anos de idade, entrou para a banda de música da Sociedade Marcial Capricho Barreirense, actualmente os “FRANCESES", tocando ferrinhos. Dizem que era uma raça vê-lo, pequenino ainda, incorporado na Banda.
Pouco tempo depois, deu-se uma deslocação da Filarmónica ao Palácio das Necessidades, para um concerto com a presença do rei D. Luís. E o menino lá esteve a actuar em cima de um banco, de pé, para ser visto. O monarca achou-lhe tal encanto, que mandou o Marquês de Ficalho entregar-lhe dez tostões, para "comprar um boneco". Teria sido um momento de ternura.
Por volta dos treze anos de idade, empregou-se nas oficinas dos Caminhos de Ferro, como aprendiz de serralheiro. No passado, era habitual dar-se trabalho aos rapazinhos, pois não havia leis que os protegessem, e os lares sentiam inúmeras necessidades, atamancadas com os salários pequenos das crianças. Sempre seriam umas ajudas indispensáveis.
O moço revelou rara inteligência, que logo foi notada na aptidão para o ofício.
Estava ali um rapaz que havia de ir longe profissionalmente... — profetiza-se entre os companheiros das oficinas, e até o diziam alguns mestres bem conhecedores das artes. Ou não fossem eles os mestres...
A sua ascensão na empresa aconteceu segura, degrau a degrau. Com habilidade invulgar, triunfava em tudo que se metia a fazer. Para ele, problemas não existiam. Era realmente possuidor de faculdades muito acima da média.
O desenho fascinava-o deveras, acabando por entrar para a secção respectiva. Espantoso. Logo se salientou em desenho de máquinas e ferramentas. Com vinte e cinco anos de idade, no ano de 1889, subiu a contra-mestre, e, em 1905, com quarenta e um anos, passou a mestre de oficinas. Uma ascensão rápida. Mas a verdade é que o homem era mesmo excepcional. Tinha categoria e vocação. Uma inteligência forte.
De realçar que António José (da Loura) deixou várias criações de máquinas e ferramentas de sua autoria. Portanto, um criador, um inovador, um técnico. Por exemplo: as primeiras balanças usadas nos Caminhos de Ferro foram desenhadas e construídas sob a sua orientação. Era tal a sua competência que não teve dificuldade em se impor. E assim seria nomeado Mestre Geral das Oficinas dos Caminhos de Ferro do Estado. A consagração muito merecida de um técnico que, sem estudos escolares, conseguiu elevar-se a uma posição destacada mercê de um grau elevado de inteligência, de um grande empenho e capacidade criadora e executiva verdadeiramente sensacionais.
Tenho vindo a referir-me, praticamente, à vida profissional de António José, com algumas variantes, recheada de inovações e obras realizadas, numa ascensão notável, que o tornou respeitado aos olhos de todos, em especial dos companheiros de trabalho.
Outras facetas o distinguiram, precisamente no plano cultural. Poder-se-á afirmar que o António José (da Loura) era um predestinado. Há 60-70 anos, ter a energia e os conhecimentos técnicos e práticos de que deu provas, acrescidos ainda de motivações várias e sérias nas relações humanas e espirituais, podia dizer-se que era importante.
Sem dúvida. E muito para admirar. Hoje, se fosse vivo, o que ele não faria nalgumas áreas, com a ajuda das escolas e tecnologias novas...
Pessoas que com ele mais de perto conviveram, incluindo familiares, são unânimes em reconhecer nele um autodidacta de craveira bastante elevada.
Gostava de crianças. Como vai sendo hábito afirmar-se: adorava-as. No seu tempo de lazer, construía brinquedos, às vezes mobílias de papel imitando v***a, peças tecnicamente bem executadas, que faziam o encanto das crianças, também dos adultos, a quem, em muitos casos, ofertava gostosamente. O interessante é que chegou a ser padrinho de muitas dessas crianças. Ali, no "Largo do Casal", nas suas imediações, quase não havia rapaz ou rapariga que não o tratasse por padrinho. Muito significativo e revelador do seu amor às crianças.
Pelo Natal, erguia, em sua casa, uma árvore lindamente ornamentada e completa com brinquedos e guloseimas, construindo igualmente um presépio com todas as figuras apropriadas, a que não faltavam o moinho, a cascata, a verdura, etc., etc. Depois, chamava a miudagem da zona, que acorria, contente, a sua casa, num corrupio desusado. Uma festa enorme e feliz, no meio infantil. Talvez, quem sabe, porque no seu lar não tivesse havido filhos. Festas cheias de ternura e encanto, que o António tinha um coração magnânimo, e dava disso testemunho autêntico.
Mas não se julgue que tudo eram rosas. O homem também se deixava levar pelos maus momentos. Irritava-se facilmente quando os adultos o contrariavam. Ele havia sido um ornamentador apreciável e, nesta área artística, chegou a alindar grandes festas, sobretudo nos "FRANCESES", festas de belo efeito, famosas em anos já distantes. Mas que ninguém contrariasse as suas opiniões e o seu trabalho em questões de ornamentação. Não admitia.
Foi-me contado que, na preparação de uma festa pomposa, de que as pessoas de então muito gostavam, às quais acorriam em massa, particularmente os associados da colectividade festejante, houve um desentendimento com a direcção dos "FRANCESES", quanto ao tipo de dada ornamentação a fazer. Irritado, recusou-se a colaborar levando todas as peças, já prontas, para sua casa. Tudo em cima da hora próxima do espectáculo, o que viria a complicar o programa festivo. Do incidente, resultou a sua expulsão de sócio da colectividade e a retirada do seu retrato que figurava junto dos de vários outros sócios fundadores, situados em lugar de destaque. Problemas que aconteceram e são de todos os tempos.
Reatando o fio à exposição das suas habilidades artesanais, é de dizer também que, por alturas da quadra dos santos populares, idealizava e confeccionava tronos, bonitas miniaturas dos três santos, a que não faltavam castiçais, a custódia, as jarras, as flores e a bandeja milagrosa para os tostões que haviam de cair nela. Tradições um tanto ingénuas que se foram perdendo na voragem dos anos, mas que ajudavam a dar às pessoas uma dimensão simples e humana das coisas e dos costumes seculares de que tanto se gostava, então.
Executava peças artesanais com a maior perfeição. Recordo-me que, em Março de 1964, se realizou na Biblioteca Municipal uma exposição de pratos com decorações de sua autoria. Para fazê-las, serviu-se de pedaços de porcelana fina e desenhou, depois, composições artísticas primorosas, chegando a imitar o mosaico bizantino.
Por altura da guerra de 1914-18, executou um prato expresso para a Cruz Vermelha Portuguesa, a quem ofereceu, destinado a ser leiloado a favor dos soldados combatentes na guerra. O facto foi referido pela "Ilustração Portuguesa", revista da época. Havia nele, também, preocupação pelos outros.
Como já referi atrás, o António José (da Loura) foi um autodidacta. Aprendeu muito da leitura. De resto, nessa época, dos anos 10-30, a população barreirense, mais restrita à zona ribeirinha ao Tejo, lia bastantes livros, que levantava das bibliotecas das colectividades e dos clubes.
Sem grandes estudos, em termos escolares, as pessoas elevavam-se culturalmente através da acção instrutiva das bibliotecas, hoje tão em desuso.
O António José tinha uma boa biblioteca em casa, recheada de bastantes livros. Era detentor, até, de primeiras edições da obra integral, completa, de Camilo Castelo Branco, e a colecção inteira de Júlio Verne. Sentia orgulho disso. Familiares, afilhados e amigos serviam-se dos seus livros para passarem os serões e cultivarem-se, naturalmente. Por sua morte, e da mulher mais tarde, todo o espólio valioso foi para a empregada doméstica dedicada, de nome Perpétua, que, sendo analfabeta e desconhecendo o valor das obras literárias, as vendeu, a peso, a um alfarrabista de Lisboa. Quanto não valeriam, hoje, as primeiras edições dos livros de Camilo?
António José (da Loura) morreu em 14 de Setembro de 1949, com mais de oitenta e cinco anos de idade.
A sua passagem por este mundo foi altamente ilustrante, não só como técnico, mas também, e, sobretudo, como homem que serviu a comunidade, embora levando sempre uma vida simples e sem grandes aparatos. Ainda, presentemente, perpassa pelo Barreiro uma áurea leve da sua existência. Foi um barreirense de bom nome.
Bem merecia ser recordado, até pela Autarquia, que nunca será demais evocar-se os filhos da nossa terra.
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Da Minha Terra…
As fotografias que ilustram a capa e a contracapa deste livro, foram feitas com uma intenção: fixar João Liberal no meio ambiente que o viu nascer — os barcos, o rio, e as casas da beira-rio.
A fotografia da capa é bem elucidativa: tem por pano de fundo um monumento — o Moinho Pequeno!, hoje, infelizmente, em decadência.
A outra, a que encima estas palavras, tem por cenário um belo edifício branco, moderno — quase dois séculos mais novo do que o velho moinho de maré, mas também já decadente, porque não houve mão milagrosa que o arrancasse para a vida...
Enquadrado neste "décor", João Liberal enfrenta a objectiva: 66 anos vividos aqui, junto a estes barcos e a estas casas da beira-rio.
Há três anos escreveu um livro: "Quadros — Memórias da Minha Infância".
Um belo e poético documento sobre a sua terra.
Foi uma peregrinação terna• e romântica aos confins da sua memória.
Hoje, com a publicação deste seu novo livro, o Barreiro surge novamente como tema.
Só que, desta vez, João Liberal leva-nos a sentir um certo Barreiro dos anos 30, 40 e 50, através do pulsar de Gente que conheceu e conviveu.
Gente que já não olha estes barcos e estas casas da beira-rio — mas que permanece viva na memória de muitos barreirenses, e agora também nas páginas deste livro.
AUGUSTO CABRITA
Novembro. 1988
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Dedicatórias
de João Liberal
Ao Vítor Cardoso com a estima do João Liberal
de Augusto Cabrita
Ao Vítor Cardoso de Terras de Elmano Sadino, hoje ancorado junto ao Tejo, entre sereias e tritões, sempre hidraulicamente atento às maldades ecológicas do nosso tempo.
Por um Moinho Pequeno mais limpo e eficiente quando os seus rodízios davam o pão a Lisboa… O teu sempre Augusto Cabrita
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ÍNDICE
NOTA
JOÃO RESENDE
MIGUEL MARIA DE ALMEIDA CORREIA
ANTÓNIO JOSÉ (da Loura)
JOÃO ROBERTO PEREIRA (Suta)
MARIA EMÍLIA DE OLIVEIRA CRUZ E FRANÇA
PADRE ABÍLIO DA SILVA MENDES
MARIANO DO ROSÁRIO
MÁRIO RODRIGUES SOLANO
MARIA ESTHER MONGIARDIM DA COSTA FIGUEIRA
JORGE FERNANDES TEIXEIRA
ARMANDO DA SILVA PAIS
JOSÉ AUGUSTO DOS SANTOS (da Romana)
JORGE SOBRAL
JOAQUIM ANTÓNIO OLIVEIRA DA SILVA
ANTÓNIO GERMINO
JOSÉ JOAQUIM RITA SEIXAS
ALBERTO PINTO
MÁRIO DA COSTA MANO
JOÃO AZEVEDO DO CARMO
LIBÂNIA DA SILVA
ARSÉNIO TRINDADE DUARTE
CÂNDIDO LOPES
JOSÉ FRANCISCO DA COSTA NEVES
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NOTA
Ao publicar o livro intitulado DA MINHA TERRA..., pretendo homenagear umas tantas personalidades nascidas no Barreiro, ou que nele viveram largos anos, que me tocaram particularmente a sensibilidade. Muitas outras figuras mereciam estar nele, só que isso me foi impossível, por dificuldades de vária ordem.
Os textos constituem breves narrativas biográficas sem pretensões literárias nem rigidez metodológica, tudo escrito com a maior leveza e simplicidade.
Volvo o pensamento àquelas pessoas que me deram amavelmente a sua colaboração. Foram inúmeras, na grande maioria familiares dos biografados, que descreveram testemunhos vivenciais muito ricos, ou que facultaram documentos importantes, sem os quais não teria podido levar por diante o meu intento. Perdoar-me-ão, com certeza, por eu não citar os seus nomes; mas desejo, com tal omissão, evitar uma lista bastante extensa, que acabaria por se tornar fastidiosa ao leitor.
O meu reconhecimento, pois, pelo contributo valioso, imprescindível ao aparecimento deste livro.
O AUTOR
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UM MESTRE DE OPERÁRIOS BARREIRENSE NO CENTENÁRIO DE ANTÓNIO JOSÉ (DA LOURA) (1)
(1964)
Estiveram expostos, em Março de 1964, na Biblioteca Municipal desta vila vários pratos decorativos feitos por António José (da Loura), com pequeninos pedaços de porcelana fina, dispostos segundo composições de desenho por ele próprio concebidas. Trabalhos de muita habilidade, paciência e gosto, que se admiraram com prazer.
Particularmente nos pediram os atenciosos funcionários da referida Biblioteca que escrevêssemos uma linhas sobre o autor daqueles trabalhos, porquanto passava então o centenário do seu nascimento. Aqui lhes agradecemos a lembrança e atendemos o pedido formulado.
No dia 13 de Março de 1864 (um Domingo em que pelas ruas do Barreiro desfilava a Procissão do Senhor dos Passos), nasceu nesta vila um menino que receberia na pia baptismal o simples e económico nome de António José... Era seu pai Domingos Bernardo e sua mãe uma airosa e desenxovalhada rapariga alourada de nome Joana Baptista.
Marido e mulher estremeciam o pequerrucho. A vizinhança daquele lar de gente pobre, mas honrada e feliz, começou daí a pouco a distinguir o rapazote dos outros da sua idade pelo «soubriquet» de António José (da Loura).
E António José (da Loura) ficou ele até ao fim da vida, que foi dilatada. Tornou-se um exemplo de self made man, dos muitos que se forjaram nesta vila e lhe deram — e dão ainda — fama de possuir operários dos mais habilidosos do País. Que saibamos, ele só sabia ler, escrever e contar, e o «curso» que frequentou... foi a tropa — mas chegou a Mestre-Geral das Oficinas dos Caminhos de Ferro do Estado, do Barreiro. Quanta ciência «empacotada» seria hoje necessário acumular para isso — para, depois, atirar 90% dela para desperdícios?!...
António José entrou aos 13 anos para aprendiz de serralheiro das Oficinas. A sua muita habilidade para o desenho (de máquinas e ferramentas) deu ensejo a destacar-se e passar para a Secção de Desenho, da qual foi nomeado contramestre em 1889. Finalmente, em 1905, substituiu mestre Augusto Rodrigues no lugar de Chefe das Oficinas dos Caminhos de Ferro do Barreiro. Esteve em missão de serviço na Escócia, onde fiscalizou a construção de várias máquinas para os C. F. S. S.
Entre outros importantes trabalhos desenhados e executados sob a direcção de António José, figuraram as primeiras balanças centesimais usadas nos Caminhos de Ferro do Sul, e algumas básculas para grandes pesagens, recebendo, cremos que por essa altura, a medalha de «Bons Serviços e Exemplar Comportamento», por Decreto de 25 de Maio de 1912.
Em 1913, este operário, mestre de operários, pediu a reforma. Tinha 36 anos de serviço, e iria viver ainda outros 36 anos, como aposentado, pois faleceu em 1949. Fora o 3.º mestre-geral das Oficinas dos C. F. do Sul e Sueste. A ele sucedeu Alexandre de Almeida, outro velho ferroviário que ainda bem conhecemos, e que foi o último dos prestigiosos chefes dessas Oficinas que ascendeu àquela categoria. (2)
Quando mais de perto conhecemos António José, andava ele já na casa dos sessenta anos. Várias vezes subimos ao 1.0 andar da sua residência, na ex-Rua Almirante Reis (actual Rua do Cons. Serra e Moura), esquinando para a Rua Dr. Eusébio Leão, e, por nossas largas conversas, muitas indicações preciosas do Barreiro do Séc. XIX lhe ficámos devendo.
Era ainda um homem bem conservado, e raro lhe falhava a memória, mas quando lhe escapava uma indicação, embora secundária, logo a mulher, D. Gertrudes Maria Marques, também do Barreiro e já falecida, vinha completar a referência que ele considerava incompleta. Era um casal muito unido. Viviam um para o outro. Não tiveram filhos.
Aos 7 anos de idade, António José tornou-se componente da banda de música da Sociedade Marcial Capricho Barreirense («Franceses»), tocando ferrinhos. Nos fins do ano de 1871, lá foi ele, encorporado na banda, tocar a Lisboa, ao Paço das Necessidades na presença do rei D. Luís I. Como era muito miúdo, foi autorizado a subir para um banco, para ser visto pelo Mestre... Quando faleceu, era ele o último dos componentes da banda dos «Franceses» do tempo de João Gazul, músico da Real Câmara.
Depois de reformado, relativamente novo ainda, António José da Loura dirigiu muitos trabalhos de decoração para as salas da sua dilecta Colectividade, em grandes ocasiões festivas. E das suas mãos saíam ainda interessantes trabalhos executados em cartão e papéis coloridos: figuras, flores, calendários, etc. etc. que distribuía pelos moços e pelas meninas das suas relações. Na época das folias carnavalescas, na Páscoa e pelos santos populares era então solicitado pela mocidade alegre para exibir as suas paciências.
Quando, pelos anos de trinta, as bandas dos «Penicheiros» e «Franceses» acabaram e a emolução terminou, António José repartiu também pelos «Penicheiros» a sua colaboração nas festas que essa colectividade organizava. Para mais, era seu bem próximo vizinho.
Quando este velho ferroviário faleceu — a 14 de Setembro de 1949 — não havia imprensa regionalista no Barreiro. O seu passamento não foi, por isso, assinalado como devia. O centenário do seu nascimento deu-nos, pois, o ensejo de recordar alguns traços dessa figura de genuíno barreirense, de cujas mãos saíram muitos prodígios de bom gosto.
Que grande professor de Desenho e Trabalhos Manuais ele poderia ter sido!
(1) Primitivamente publicado no Jornal do Barreiro, n.º 696, de 26 de Março de 1964.
(2) V. a crónica anterior «Antigos e Habilidosos Operários que honraram o Barreiro (…)»
ANTIGOS E HABILIDOSOS OPERÁRIOS QUE HONRARAM O BARREIRO (ONDE NASCERAM OU ONDE SE ESPECIALIZARAM) E O TRABALHO NACIONAL
Segue-se a citação de alguns dos primeiros e bons operários barreirenses e de outros mais que, não sendo naturais desta vila, aqui vieram fixar-se e aqui se destacaram por seus próprios méritos. Deve observar-se que, na sua grande maioria, desenvolveram as aptidões sem o amparo de bases técnicas, mas procurando aperfeiçoar-se gradualmente nos seus ofícios, guiados por competentes mestres e acabando por vencer e criar prestígio, impelidos pela vocação e pela força de vontade, que em quase todos se observava.
Certamente que é mais natural uma relação desta natureza pecar por diferença, que não por excesso. Reconhece-se essa maior possibilidade e para ela se pede a devida compreensão. Servimo-nos de numerosos apontamentos de diversas origens e de depoimentos verbais de já velhos operários locais, que na nossa mocidade conhecemos (quase todos já há muito desaparecidos do rol dos vivos), controlando depois as suas informações e juízos críticos. Alguns desses homens conheceram ainda, directa ou indirectamente, vários elementos dessa primeira camada de operários que se formou no Barreiro, depois de 1861, quando, com a abertura à exploração do Caminho de Ferro ao Sul do Tejo, se começou a processar o desenvolvimento industrial do Barreiro.
António José (da Loura) e João da Luz foram os que — desfiando longo rosário de recordações — nos falaram dos tempos mais recuados, seguindo-se-lhes Eduardo Rodrigues da Silva, Augusto dos Santos e, mais modernamente, Joaquim José (este último ainda, felizmente, vivo e há anos residente em Lisboa), todos, por coincidência, naturais do Barreiro, — aos quais ficámos a dever estes elementos que são bem da história do povo, do povo que, afinal, faz a História.
In
O BARREIRO CONTEMPORÂNEO
A grande e progressiva vila industrial
III Volume e Miscelânea (factos e figuras do Barreiro de várias épocas)
por Armando da Silva Pais
Edição da Câmara Municipal do Barreiro – 1971
https://cenaculodobarreiro.com/publicacoes/
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Cortesia de Vítor Cardoso