29/12/2025
Quando Dezembro Não Sabe Sorrir
Há meses que chegam como festa, embrulhados em luz,
promessas e mesas cheias. E há meses que chegam como
espelho. Dezembro é assim: para alguns, celebra; para outros,
revela. Revela ausências que o resto do ano conseguiu esconder
no barulho dos dias. Revela silêncios que aprendemos a chamar
de saudade para não chamá-los de dor.
Enquanto o mundo insiste em luzes piscando, há quem caminhe
por dentro. Por dentro de lembranças, de nomes não ditos, de
cadeiras vazias que ninguém mais percebe. Dezembro tem esse
dom cruel: ele não pergunta se estamos prontos. Ele apenas
chega, trazendo junto tudo aquilo que evitamos sentir.
A saudade não grita. Ela pousa. Como um pássaro cansado no
peito. E ali f**a, batendo asas por dentro, lembrando que amar é
também aprender a conviver com a falta. Não é fraqueza sentir.
Nunca foi. Fraqueza é fingir que o coração não sente o peso do
que foi verdadeiro.
Há quem sorria em fotos e chore em silêncio. Há quem celebre
por fora e sobreviva por dentro. E tudo bem. Nem toda alegria
precisa ser exibida. Nem toda tristeza precisa ser explicada.
Alguns lutos são íntimos demais para caber em palavras simples.
Dezembro também ensina que a vida não é linear. Que enquanto uns partem, outros f**am. Que enquanto uns voam juntos, outros aprendem a olhar o céu sozinhos. E mesmo assim, continuar. Continuar é um ato de coragem diária que ninguém aplaude.
Mas há beleza nisso tudo. Uma beleza quieta, quase invisível. Está no gesto de acordar apesar do peso. No coração que ainda sente, mesmo cansado. Na saudade que prova que algo foi real, intenso, vivo. Só sente falta quem amou de verdade.
Talvez a felicidade não esteja em todos os meses. Talvez ela esteja nos pequenos instantes em que respiramos fundo e seguimos. Em aceitar que nem todo dezembro será feliz e que isso não nos torna quebrados, apenas humanos.
E se hoje o céu parece distante, lembre-se: até os pássaros, antes de voar juntos, aprendem a suportar o vento. Alguns voos são solitários. Mas continuam sendo voo. E isso, por si só, já é um tipo silencioso de vitória.