28/07/2025
Repassando…
“Ela só queria ajudar... Mas o mundo adulto esqueceu como é ser criança."
Ontem à tarde, entrei correndo num mercado do centro. Eu só precisava de algumas coisas rápidas, mas algo que presenciei na fila do caixa mexeu comigo de um jeito que eu não esperava.
Bem à minha frente, estava uma mulher de olhar cansado e semblante fechado, acompanhada de uma garotinha que devia ter uns cinco anos. Pequena, com trancinhas soltas e olhos curiosos. Se chamava Clara.
— Mamãe, posso colocar tudo na esteira sozinha? — perguntou com aquela animação pura que só uma criança consegue ter.
Ela não queria atrapalhar, só queria participar. Ser útil. Fazer parte.
A mãe, visivelmente apressada e estressada, soltou um suspiro curto:
— Tá bom, mas seja rápida, estamos com pressa.
Clara começou a organizar os produtos com todo o cuidado do mundo. Pegava um por um como se fossem cristais, com as duas mãozinhas pequenas. Mas de repente — crack! — um pacote de aveia escapou e se esparramou no chão. O plástico rasgou ao bater na quina da caixa. Quase nada se perdeu, mas o estrago estava feito.
Clara congelou. O rosto dela se desfez em segundos.
— Eu sabia! — explodiu a mãe. — Sempre que tenta ajudar, atrapalha! Olha só! Mãos desastradas! Agora tenho que voltar pra pegar outro!
A menina baixou os olhos, sem dizer nada. As lágrimas vieram devagar, silenciosas. Não era só a aveia que tinha se rompido… era a confiança dela. A vontade de ajudar. A autoestima. Tudo espalhado no chão como os grãos.
A mãe resmungou algo, empurrou os produtos e saiu bufando para buscar outro pacote.
A atendente, sem paciência, murmurou:
— E agora? Quem vai pagar por isso? Eu, por acaso?
Foi quando dei um passo à frente.
— Calma… eu levo esse pacote. Mas com uma condição — disse, sorrindo. — Que sua filha me ajude a colocar minhas compras na esteira. Aposto que ela é ótima nisso.
A mulher hesitou. Mas meu olhar firme fez ela entender. Ela chamou:
— Clara, minha flor… ajuda essa moça, por favor?
A menina assentiu em silêncio. Os olhos ainda úmidos, mas agora com um fio de esperança. Começou a organizar minhas coisas com cuidado redobrado. E olhava de lado, discretamente, como quem ainda buscava aprovação.
Eu falei alto, como quem apenas comenta:
— Uau, que ajudante incrível você tem! Que menina cuidadosa!
A mãe sorriu sem jeito, mas algo nela amoleceu.
— Ah, sim… a Clara sabe fazer de tudo. Aspira a casa, me ajuda na cozinha, até põe roupa na máquina.
Outras pessoas na fila sorriram também. O ar parecia mais leve.
Pagamos quase ao mesmo tempo. Lá fora, o sol já se preparava para se esconder atrás dos prédios. Começamos a andar juntas por acaso.
Olhei para Clara e perguntei:
— Você já foi a Veneza?
Ela me olhou confusa.
— Veneza? Não…
— Nem eu. Mas li que lá tem uma praça cheia de pombos. Dizem que eles pousam na sua mão, no ombro, no cabelo. Deve ser mágico, né?
— Nossa… que legal! — disse ela com olhos brilhando.
— E se eu dissesse que podemos ir pra lá… agora?
Ela arregalou os olhos.
— Agora?
Puxei da sacola o pacote de aveia rasgado. Sorri.
— Aqui está nossa passagem. Vamos transformar essa rua… na Praça de São Marcos. Pode ser?
Fomos até uma área mais aberta, longe do movimento.
— Da outra vez a aveia caiu sem querer, né? Foi sem graça. Mas agora… joga com vontade, Clara. Faz bonito.
Ela olhou para a mãe, que dessa vez sorriu e assentiu.
— Posso mesmo?
— Claro que pode, meu amor — disse a mãe, com uma voz cheia de carinho.
E então, Clara girou o corpo e jogou a aveia no chão com alegria. Em segundos, pombos vieram de todos os lados. Rodearam os pés dela. Subiram nas mãos. Ela gargalhava como se estivesse no céu.
— Mamãe! Olha! Eles vieram de verdade! A gente chegou em Veneza!
A mãe se ajoelhou, a abraçou apertado, e seus olhos também se encheram. Não de cansaço, mas de ternura. Olhou pra mim e disse, emocionada:
— Obrigada… você tirou a gente de um dia muito difícil.
— Às vezes, um dia ruim só precisa de uma faísca boa — respondi. — E qualquer esquina pode virar Veneza, se o coração estiver disposto a imaginar.
Ela sorriu, tocando o rosto da filha.
— É… agora já parece outro mundo mesmo.
Clara dançava entre os pombos. A mãe ria de verdade. E eu? Eu me afastei em silêncio.
Meu papel ali… já tinha se cumprido.
Ei Izabel, me vi tanto nessa menina, muitas memórias surgiram aqui 🙏🏽❤️