21/10/2024
Então ...
Qual o futuro da esquerda ?
Paira uma sensação no ar , como aquela brisa que antecede a tempestade. A política, especialmente no campo da esquerda, parece estar numa encruzilhada. De um lado , uma tradição enraizada em lutas históricas , bandeiras erguidas por décadas. Do outro, a urgência de mudanças, renovações, para sensibilizar e atrair, pessoas que não mais se sentem representadas, nestes discursos.
Mas, ao contrário do que muitos podem pensar, o problema não está nas causas defendidas. Ainda querem justiça social, equidade, direitos humanos. Isso tudo continua a ser o objeto. O que parece ter se desgastado , é a forma como essas bandeiras são levantadas. Talvez seja a hora de os partidos, ditos de esquerda, olharem para dentro, como quem repara uma casa que, com o tempo, foi sendo corroída pelo tempo.
Primeiro, o diálogo, deve ser objetivo e, focado nas reais nescidades. Não basta mais pregar para os “convertidos”. É preciso reconquistar o povo, especialmente aquele que foi se afastando, desacreditado, em busca de respostas fáceis, oferecidas pelos “populismos” de plantão, pela ultra direita. Será preciso, urgentemente, aprender a falar a língua das ruas novamente, sem academicismo, que acaba afastando o povo e, principalmente, sem arrogância daqueles que se consideram moralmente superior. A simplicidade e a clareza deve ser adotada.
Depois, o foco. Neste mar de bandeiras levantadas, escolher com melhor sintonia, com as demandas sociais, as batalhas a serem lutadas. Quando tudo é importante, nada o é. Há causas essenciais que precisam ser priorizadas e, isso exige estratégia, exige foco e, às vezes, sacrifícios. Para isso, não será preciso abandonar princípios, mas sim, entender por onde começar a mudança.
E então, a prática. Discurso sem ação e sem exemplo é apenas vazio sem eco. Não adianta vociferar, contra a corrupção, se as estruturas partidárias continuam funcionando como balcões de negócio, com “caciques” que se perpetuam no poder. A renovação precisa ser de dentro para fora, com democracia de verdade. Sendo assim, garantir espaço para novas vozes e abolir o pragmatismo eleitoral que, no final, faz a esquerda se parecer com aquilo que se critica.
Por fim, a coragem de voltar a sonhar. A história das lutas, sempre foram lugar para utopias, de visões de um mundo mais justo e igualitário. Mas, em algum momento, estes sonhos foram sendo diluídos, por um “realismo” cínico e pelas alianças improváveis e, pelas derrotas acumuladas. Será preciso resgatar esse espírito. As pessoas ainda querem sonhar, ainda querem acreditar que um futuro melhor é possível. E a esquerda precisa sinalizar que pode ser a guardiã deste sonho. Com os pés no chão , sabendo que não existem atalhos para a mudança.
Se conseguir, este propósito de renovação e voltar a se conectar com o povo, sinalizando que poderá ser o guia daqueles que, no meio da tempestade, ainda podem acreditar, na possibilidade de encontrar terra firme em meio a neblina de um sistema que ela mesma se propôs a mudar.
São Bernardo do Campo, 20 de Outubro de 2024.
James Prado Gondim.
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