07/04/2026
"Ninguém! Chama-me Ninguém!" — foi o que Odisseu disse ao Ciclope para enganá-lo.
Mas depois de escapar, no alto mar, gritou seu nome verdadeiro.
Por quê? Porque a vitória convenceu seu cérebro de que o perigo havia passado. E quando o cérebro acredita nisso, o controle do risco vai embora junto.
Esse comportamento tem nome: excesso de confiança — ou overconfidence bias. É um dos vieses cognitivos mais estudados na psicologia e na economia comportamental, e também um dos mais difíceis de perceber em nós mesmos.
O que é o overconfidence bias
É a tendência de superestimar nossa capacidade, nosso conhecimento ou nossa probabilidade de sucesso — especialmente após uma conquista. Quanto mais recente o êxito, mais o viés se intensif**a.
Odisseu derrotou o Ciclope com inteligência e disciplina. Mas no momento do triunfo, abandonou exatamente o que o havia salvado: o anonimato estratégico, a cautela, o silêncio calculado.
Aquele grito convocou a maldição de Poseidon. E o que era uma viagem de volta tornou-se dez anos de errância.
Isso soa familiar?
No consultório, vejo esse padrão com frequência. Pacientes que melhoram e abandonam o tratamento antes da hora. Investidores que após um ganho expressivo aumentam a exposição ao risco. Líderes que, após um projeto bem-sucedido, simplif**am demais o próximo.
Como se proteger:
Reconheça que o sucesso recente é um gatilho para o viés, não uma prova de imunidade a ele.
Busque deliberadamente evidências contrárias à sua conclusão — especialmente quando estiver confiante.
Use pré-comprometimentos: defina seus critérios de decisão antes do momento de euforia, não durante.
Homero escreveu A Odisseia há cerca de 2.800 anos. Mas o viés que ele descreveu em Odisseu ainda mora em cada um de nós — e aparece exatamente nos momentos em que nos sentimos mais invencíveis.
Celso Sant'Ana
Psicologia Financeira