27/04/2015
O que mais preocupa na subida de juros da CEF
A Caixa Econômica Federal (CEF) anunciou mais um aumento de 30 pontos-base (0,3%) nos juros para a compra de imóveis em cima de um outro aumento feito em janeiro, de até 180 pontos-base (1,85%). Desta vez, o aumento é somente para os financiamentos dentro do sistema do SFH - Sistema Financeiro da Habitação (imóveis de até R$ 750 mil nas grandes cidades). Também diminuiu a parcela financiada do imóvel, passando de 90% para 80% do valor.
Se tomar o empréstimo aos novos custos, o efeito do aumento dos juros é um crescimento de aproximadamente 2% nas prestações e no total que se pagaria. Em um empréstimo de R$ 500 mil, a prestação cresceria um pouco mais de R$100 por mês e o total pago cresceria cerca de R$ 23 mil para um prazo de financiamento de 30 anos.
Não foram afetados os financiamentos do Minha Casa Minha Vida, nem a carteira hipotecária (imóveis acima de R$ 750 mil nas grandes cidades).
Dois pontos importantes que explicam este aumento:
- a poupança, principal fonte de financiamentos imobiliários para a CEF há muitos anos, nunca teve tantos saques como recentemente. Assim, a CEF tem que depender mais de outras fontes de dinheiro para conceder seus financiamentos. Especif**amente, a CEF tem que captar mais em LCI (Letras de Crédito Imobiliário) e CRI (Certif**ados de Recebíveis Imobiliários) e a custos e indexadores mais caros. No jargão do mercado, o “custo de funding” da CEF aumentou.
- e, para piorar as coisas, tanto as LCIs como os CRIs estão custando mais caro, porque a taxa de juros do país aumentou. Com o “realismo” fiscal que se instalou no governo, a CEF não pode emprestar e f**ar perdendo dinheiro. Assim, tem que repassar o problema para o consumidor.
O aumento em 30 pontos-base em si tem um impacto relativamente pequeno nos custos. O que mais preocupa mesmo é o precedente. Se os saques da poupança continuarem, a sinalização que a CEF passou é a de que continuará aumentando os juros para os consumidores. Até quando e até que valor não se sabe. Mesmo que os juros parem de subir, se a participação de LCI e CRI aumentar no funding da CEF, os custos dos financiamentos têm boa probabilidade de aumentar.
No mundo real dos negócios imobiliários, a principal característica do setor no Brasil é a personalização das decisões. O empresário está há muito tempo no segmento e toma decisões muito mais com feeling do que com pesquisas. O processo de decisão não tem muita formalização e vive mudando para se adequar ao próximo projeto.
Mas é interessante um pouco de conflito entre essas práticas mais tradicionais e um estilo mais formal. Algumas empresas do segmento não são mais tocadas pela tradicional intuição.
Nessas empresas, há uma predominância de uma administração com um modelo derivado de consultorias. O consultor tem por característica principal uma excelente teoria, a coleta de um grande número de informações e uma enorme importância para o planejamento, processos e documentação.
Então, esse tipo de administrador quer um nível de precisão no planejamento, o qual, na prática, não é possível antecipar. Efetivamente, não há como prever quantas unidades serão vendidas em novembro próximo, se serão 5 ou 25. E, talvez, uma sabedoria do empresário com experiência no setor é não se preocupar tanto com isso.
Pode ser que o custo de fazer um planejamento mais refinado seja maior do que o benefício que ele irá trazer. E isso f**a bem difícil de se explicar para alguém que não esteve com a barriga atrás do balcão por algum tempo.
Porém, o outro lado da moeda é ver empresas se lançarem em projetos sem que os famosos projetos executivos estejam prontos. Elas tentam apressar o processo de lançamento, mas correm o risco de incorrer em estouro de custos.
Que tal um pouco de cada?
Saiba o que estão falando os que estão com a barriga no balcão
O papel aceita qualquer coisa. A vida real é menos benevolente. Por isso, é bom conversar com quem está com a barriga no balcão. Você entende melhor os problemas e desafios de se empreender em negócios imobiliários.
É o caso da situação atual e desafios dos pequenos e médios empresários que incorporam imóveis residenciais.
Para quem não conhece o termo, incorporação imobiliária envolve tirar um imóvel do chão. Então, o incorporador acha e compra o terreno, aprova o projeto e constrói. Depois, vende ou aluga. A construção pode ser própria ou terceirizada. Então, incorporar é diferente de construir.
Conversando com incorporadores de pequeno e médio porte alguns pontos f**am claros:
- venda mais desafiadora: as vendas estão acontecendo com maior prazo em relação à velocidade de 2 ou 3 anos atrás. Na maioria das vezes, as propostas de compra vêm com permutas, o que signif**a mais custos, pois o incorporador vai ter que registrar o imóvel em seu nome e pagar uma comissão de venda deste segundo imóvel que vai entrar como parte do pagamento. No passado, o comprador iria atrás da venda de seu imóvel, arcando com estes custos que, agora, ele sente que pode repassar ao incorporador.
- diferenciação: em tempos com menor velocidade de venda, os detalhes separam o sucesso de um empreendimento do fracasso de outro. Um imóvel que acerte no acabamento mais adequado para a localização e que economize apenas nos itens que não diminuem liquidez vende mais rápido do que aqueles que economizaram onde não devia.
- preços de terrenos e imóveis: no geral, não há ainda nenhum movimento de queda de preços. Os incorporadores capitalizados preferem esperar um pouco mais na venda para garantir a rentabilidade.
Na média, o pequeno e médio incorporador busca projetos que proporcionem margem líquida entre 30% e 50%. E, quanto mais tempo demorar para vender, pior será o retorno do empreendimento. Ter R$ 100 mil de lucro em janeiro é diferente de ter R$ 100 mil de lucro em dezembro. A rentabilidade geral cai, porém o incorporador prefere arcar com o custo de oportunidade do que efetivamente dar um desconto e vender mais rápido.
A única exceção é quando o bolso aperta e o incorporador precisa fazer dinheiro. Neste momento, é que aparecem as oportunidades.