05/12/2025
Por: Cris Bala, Financial Market Researcher
O novo relatório do Banco Mundial trouxe um daqueles avisos que ninguém gosta de ouvir mas que todos precisam encarar:
Angola e Moçambique estão entre os países com pior relação entre dívida e riqueza no mundo em desenvolvimento.
Um espelho que mostra a fragilidade, a pressão sobre as famílias, a limitação dos sonhos e a angústia silenciosa de economias que tentam correr… enquanto carregam uma mochila de pedra.
Moçambique lidera os rácios mais críticos, mas Angola não está longe:
▪️ 4.º pior país do mundo na relação entre juros e RNB;
▪️ 10.º pior na relação entre juros e exportações;
▪️ E, no ano anterior, 3.º pior a nível global.
Quando um país paga tantos juros, uma pergunta grita por dentro:
Que futuro estamos a financiar? O nosso ou o da dívida?
O pior?
Nos últimos cinco anos, tudo ficou mais caro no nosso país.
A cesta básica subiu.
Os transportes subiram.
Os serviços de telecomunicações subiram.
A energia ficou mais pesada.
E o dinheiro já não compra o mesmo.
Mas a pergunta que dói, aquela que ninguém gosta de fazer, é simples:
Para onde está a ir todo esse dinheiro?
Estamos mesmo a construir um futuro melhor? Ou estamos apenas a empurrar problemas para a frente, na esperança de que outro resolva?
Porque é difícil acreditar num progresso que não se vê no mercado, no bolso, no transporte, na mesa da família.
É difícil falar de crescimento quando a realidade do cidadão comum é de aperto, renúncia e adaptação constante.
A dívida pode ser um instrumento poderoso quando usada com visão. Pode transformar um país inteiro. Mas também pode ser um fardo silencioso, que cresce ano após ano… enquanto o cidadão se pergunta por que trabalha tanto e vive tão pouco.
A verdade é que talvez não saibamos hoje se essas decisões vão construir um futuro sólido ou apenas aprofundar as desigualdades.
Talvez muitos de nós nem vivam para ver o resultado final destas escolhas.
E não é só África.
A dívida global atingiu 337 biliões de USD mais de 300% do PIB mundial.
O mundo inteiro está a viver acima do que produz.
Só entre 2022 e 2024, os países em desenvolvimento pagaram 741 mil milhões de USD a mais do que receberam. O maior desfasamento em 50 anos.
É como pedir um empréstimo com juros sufocantes… para pagar outro empréstimo sufocante.
A consequência?
Cada dólar que vai para os juros é um dólar que não chega à educação, à saúde, aos hospitais, às estradas, às pequenas empresas.
É um dólar que não cria empregos.
Que não constrói o futuro.
Que não reduz a pobreza.
A dívida deixou de ser um tema económico.
É um tema humano.
É sobre o tipo de sociedade que estamos a preparar para os próximos 20 anos.
Se queremos crescimento, estabilidade e um futuro digno… precisamos de falar sobre dívida sem medo.
Precisamos de encarar os números como o que eles são: sinais.
Sinais de que ainda temos tempo mas não muito.
Porque uma nação só cresce quando tem espaço para respirar.
E, neste momento, a dívida está a apertar demasiado.